O Brazil que nunca desiste

Vou ao Jardim de Gramacho há muitos meses, onde uma demanda profissional inicial se transformou em uma escolha voluntária, como fiz no Haiti em 2011 depois do terremoto. Eu aprendi que lutar contra o reflexo de propor soluções é difícil. Prefiro observar, me impregnar daquilo que vejo e colocar em perspectiva o cotidiano das pessoas.

A câmera transforma-se para eles um instrumento de sua dignidade, por onde eles exprimem sua luta e seu orgulho. No fim das contas, eles aprendem tanto quanto eu. À voz dos adultos, se agrega o olhar de diversas crianças que fotografam, como em uma brincadeira séria, sua própria Jardim de Gramacho.

A proposta do documentário é de começar a partir de abril, e se estender até as próximas construções dos voluntários da TETO, filmando o olhar da comunidade meio a essa efervescência.

Em um país como o Brasil, com todas suas riquezas, eu me faço uma pergunta: Como podemos deixar uma comunidade inteira entregue a ela mesma? Um ano depois do aterro de Jardim de Gramacho ter sido fechado, a comunidade se vê sem nenhuma solução viável. Pouquíssimas ou nenhuma formação é oferecida para que os antigos catadores aprendam e achem um trabalho decente. Muito pouco foi feito para sanar tantas perdas.

Pior: por lá, onde o aterro foi fechado às vésperas do Rio +20, os caminhões de lixo continuam a depositar cotidianamente quilos de detritos na comunidade, em aterros clandestinos e em frente as casas dos habitantes.

Existe, ainda, o Forum do Jardim de Gramacho, que agrupa algumas associações, a maior parte formada por moradores. Mas os moradores procuram igrejas para pedir ajuda para alimentação e um apoio moral, talvez uma esperança.

As famílias que ali vivem, por vezes numerosas, são repartidas. As crianças são mandadas para viver com terceiros, falta-lhes casa no seio de sua família, faltam-lhes recursos. As casas não tem nem água corrente nem banheiros. A água potável só é disponível 4 dias por  semana na via principal. As famílias a estocam em grandes tanques plásticos em frente a suas casas, embaixo do sol quente. A água usada para lavar roupas e louças é extraída do solo onde são amontoados os detritos ali despejados, tornando-se totalmente imprópria para consumo.

Às vésperas da Copa do Mundo, a dois anos dos Jogos Olímpicos, onde milhões são investidos em infraestrutura por vezes efêmera ou ligada ao turismo, a 30 minutos da praia de Copacabana ou Ipanema, a comunidade de Jardim de Gramacho vive no lixo e do lixo. Com o aterro fechado, fecham-se também suas esperanças?  É deles que eu quero falar, são eles que querem se expressar, para que possamos entender que o aterro, chamado de jardim, mesmo que um jardim insalubre, possa ser um jardim onde germinará um futuro.

Um grande agradecimento

Laurence